Grande Cimeira

Há quase três milhões de euros por dia para gastar no clima até 2030

Delfim Machado  |  2023-05-08


Fundos do PRR e do Portugal 2030 vão acelerar as eólicas, descarbonizar a indústria e substituir o gás pelo hidrogénio. O têxtil, o calçado e a resina vão trocar matérias fósseis por recursos biológicos.

Faltam exatamente 2400 dias para terminar a década e, por cada dia que passar até lá, Portugal terá dois milhões e 600 mil euros de fundos europeus para gastar no clima. Este é o valor médio diário das verbas destinadas à transição climática do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e do Portugal 2030, sendo que cada um destes programas disponibiliza 3,1 mil milhões de euros até 31 de dezembro de 2026 (no caso do PRR) ou 31 de dezembro de 2029 (Portugal 2030).

O elevado fluxo de fundos disponíveis permitiu que Portugal antecipasse, de 2030 para 2026, a meta de atingir os 80% de renováveis no total da energia consumida. Em 2021, essa proporção foi de 58%, muito graças à energia hídrica (essencialmente de barragens) e à eólica. Naquele ano, Portugal foi o quarto país da União Europeia com maior proporção de renováveis na energia que consome. Se a análise incidir apenas sobre a energia eólica, somos o terceiro melhor país entre os 27 estados-membros, com 26% do consumo com origem no vento. Só a Dinamarca e a Irlanda estão melhor.

Uma vez que os terrenos portugueses com mais vento já estão ocupados, o futuro passa por duas soluções: substituir as turbinas em fim de vida por outras mais potentes e criar novos parques eólicos em alto-mar. Para já, há apenas um marítimo, em Viana do Castelo, mas estão em curso investimentos para reforçar este parque e criar outros quatro: Matosinhos, Figueira da Foz, Cascais e Sines.

Portugal também está acelerar no hidrogénio verde e financiou recentemente 21 projetos que receberão quase 100 milhões de euros para substituir o gás natural e abastecer indústrias e veículos. Um dos mais valiosos será desenvolvido em Paços de Ferreira e Lousada pelos noruegueses da Nydalen e consiste em criar dois postos de abastecimento de veículos ligeiros e autocarros.

O desejo do ministro do Ambiente, Duarte Cordeiro, é criar capacidade produtiva suficiente para, até 2026, Portugal iniciar a exportação de hidrogénio verde: "Até ao final deste mandato, havemos de exportar alguma coisa para mostrar que realmente é por aqui que reside uma grande oportunidade em termos de futuro para o país".

Fazer roupa com bananas

A descarbonização da indústria, com 715 milhões de euros só do PRR, é uma das áreas com maior investimento. Na indústria da moda, a segunda mais poluente do Mundo a seguir à petrolífera, encontra-se um dos projetos mais curiosos: o "Be@t". Este programa envolve 54 empresas e é liderado pelo Centro Tecnológico do Têxtil e do Vestuário. Entre as várias iniciativas que o Be@t prevê para o setor está o desenvolvimento de matérias-primas de origem biológica. Assim, os restos de banana da Madeira, de ananás dos Açores, cânhamo do Centro, linho do Norte e palha de arroz do Alentejo servirão para "alimentar" a indústria da moda e vestuário. E este exemplo está a ser seguido por projetos semelhantes da fileira do calçado e da resina.

No que toca à transição climática, a indústria é o setor que dispõe de maior verba, mas estes apoios também podem chegar aos cidadãos. Por exemplo, quando comprar uma bicicleta ou um carro elétrico tem direito a um apoio, limitado à procura, que financia uma parte da compra. Ou se fizer o isolamento térmico de casa pode aproveitar os 300 milhões de euros destinados à eficiência energética em edifícios residenciais, que também pagam bombas de calor ou janelas eficientes.

Por outro lado, os fundos europeus são responsáveis pelas grandes obras de mobilidade sustentável que estão em curso ou estarão em breve, de norte a sul do país. São os casos dos metros de Lisboa e Porto ou dos autocarros rápidos da Boavista e Braga, mas também os carros elétricos que todas as instituições sociais vão ter para prestarem apoio domiciliário.

O Fórum da Sustentabilidade e Sociedade inclui uma grande conferência, a 11 e 12 de maio, no Salão Nobre da Câmara de Matosinhos. Pode inscrever-se para assistir ao vivo ou seguir em direto através dos sites do JN, DN, TSF e Dinheiro Vivo.

Mudança na energia

O primeiro painel, na manhã do dia 11, será dedicado às "Tendências globais na energia" e contará com a comissária europeia Kadri Simson (Energia) e Jos Delbeke, especialista em políticas climáticas, entre muitos outros especialistas. O encerramento terá Filipe Silva, CEO da Galp, e Duarte Cordeiro, ministro do Ambiente e Ação Climática.

Futuro sustentável

O segundo painel, dia 11 à tarde, tem como tema "Construir um futuro sustentável e inclusivo", contando com a presença de personalidades como a comissária europeia Elisa Ferreira (Coesão e Reformas) ou o arquiteto Gonçalo Byrne, presidente da Ordem dos Arquitetos.

Objetivos e políticas

O terceiro painel, na manhã do dia 12, debaterá os "Objetivos e políticas para uma Europa sustentável" e contará com o Prémio Nobel da Paz Muhammad Yunus. O arranque da sessão será marcado por uma intervenção do presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o encerramento estará a cargo do secretário de Estado da Digitalização e da Modernização Administrativa, Mário Campolargo.


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